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Com a benção do Papa, a Igreja Católica discute a “diabólica” inteligência artificial

Documento do Vaticano detalha como a inteligência artificial deveria ser regulada e conta com o apoio de grandes empresas de tecnologia, como IBM e Microsoft

Com a mesma velocidade em que ganha presença no dia a dia de boa parte dos consumidores, a inteligência artificial vem alimentando uma série de discussões em torno de suas oportunidades e riscos.

Nesse contexto, o tema já extrapolou os círculos do setor e alcançou um espaço até pouco tempo impensável para um debate dessa natureza: as salas e corredores do Vaticano.

Esse interesse é personificado na figura do Papa Francisco. Nos últimos anos, não foram poucas as vezes em que ele dedicou parte de seu tempo a esse assunto, especialmente em encontros com executivos do setor, como Mark Zuckerberg, do Facebook, e Eric Schmidt, ex-Google e Alphabet.

No fim de fevereiro, o Vaticano e o sumo pontífice voltaram a dar mostras de que o assunto está na ordem do dia para a Igreja Católica. Com o apoio do Papa Francisco, foi lançado o “Chamado de Roma para a ética na Inteligência Artificial”.

Elaborado pela Academia Pontifícia para a Vida, o documento estabelece seis princípios gerais para o uso da inteligência artificial: transparência; inclusão; responsabilidade; imparcialidade; confiabilidade; segurança e privacidade.

“Os sistemas de inteligência artificial devem ser concebidos, projetados e implementados para servir e proteger os seres humanos e o ambiente em que vivem”, afirma o texto.

Em outro trecho, é ressaltado o fato de que essa tecnologia deve ser desenvolvida e adotada garantindo os “direitos e a liberdade de indivíduos para que não sejam discriminados por algoritmos devido à sua raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política, origem nacional ou social, propriedade, nascimento ou outro status.”

O documento guarda semelhanças com as diretrizes sobre o tema lançadas pela União Europeia, em abril de 2019. Elaborado com o auxílio de 52 especialistas, o texto em questão trouxe sete requisitos para os futuros sistemas centrados nessa tecnologia. Entre eles, supervisão humana; privacidade; governança de dados; transparência; diversidade, justiça; e ausência de discriminação.

Aproximação

A publicação do Vaticano reforça a aproximação das autoridades da Igreja Católica com as empresas de tecnologia. O documento contou com as assinaturas da IBM e da Microsoft, representadas, respectivamente, pelos executivos John Kelly, vice-presidente executivo da “Big Blue” e Brad Smith, presidente da companhia fundada por Bill Gates.

Antes disso, além dos encontros do Papa Francisco com executivos do setor, a Academia Pontifícia para a Vida e outras áreas ligadas ao Vaticano já haviam organizado oficinas e eventos sobre inteligência artificial, com a presença e o apoio de empresas como LinkedIn, Google, Salesforce e a própria Microsoft. Essa tecnologia também vem sendo tema de pesquisas acadêmicas dentro do Vaticano.

Da mesma forma, a inteligência artificial tem sido alvo de manifestações recorrentes de importantes executivos do setor. Em janeiro, por exemplo, ela foi o tema de um editorial escrito por Sundar Pichai, atual CEO do Google e da Alphabet, no jornal Financial Times.

“Não há dúvidas de que a inteligência artificial precisa ser regulamentada”, afirmou. “Empresas como a nossa não podem simplesmente construir novas tecnologias promissoras e deixarem as forças do mercado decidirem como serão usadas.”

CEO da Microsoft, Satya Nadella também colocou o assunto em destaque em sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, no fim de janeiro, ao afirmar que a regulamentação é crucial. E que as empresas e executivos envolvidos “não podem abdicar de suas responsabilidades.”

À parte do discurso, alguns especialistas ressaltam que, nos bastidores, as gigantes do setor têm atuado no sentido de orientar as discussões e eventuais regulamentações sobre o tema.

Na prática, essa influência teria como objetivo o estabelecimento de normas mais superficiais e menos restritivas ao desenvolvimento e à aplicação dessa tecnologia.

Um exemplo dessa abordagem seriam as diretrizes que vêm sendo estabelecidas pelo governo do presidente Donald Trump. No início do ano, durante a Consumer Electronics Show (CES), realizada em Las Vegas (EUA), representantes da Casa Branca deixaram claro que a intenção é centrar o debate em torno do estímulo à inovação, em detrimento de regulamentações que possam travar o desenvolvimento da inteligência artificial.

Em meio a esse burburinho, outras vozes importantes no setor já mostraram, no entanto, uma posição mais firme em relação a esse conceito. É o caso de Elon Musk, fundador de empresas como Tesla e SpaceX.

Em fevereiro, ele defendeu que todas as empresas que desenvolvem inteligência artificial sejam regulamentadas, incluindo suas companhias. E destacou que essas regras deveriam ser elaboradas e aprovadas em conjunto por governos e organizações globais, como a ONU.

“Esse é um caso raro em que acho que precisamos ser proativos na regulamentação”, afirmou Musk, lembrando que, na maioria das vezes, é contrário às leis que inibem a inovação. Antes, ele já havia dito que a inteligência artificial é a “nossa maior ameaça existencial.”

Outro nome relevante já havia se manifestado nessa direção. E de maneira ainda mais contundente. Antes de falecer, em 2018, o físico Stephen Hawking colocou em xeque os benefícios e riscos dessa tecnologia.

“Com essa revolução tecnológica, talvez possamos reduzir parte dos danos feitos à natureza, erradicar doenças e a pobreza”, afirmou ele durante a abertura de um evento do setor realizado em Portugal, no fim de 2017. “A inteligência artificial pode se mostrar a maior invenção da história da civilização. Ou a pior. Ainda não sabemos se seremos beneficiados ou destruídos por ela.”

NeoFeed 

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